#96 – Belas Artes – A Esquina do Cinema (Compacto)

Não sei se o documentário “Belas Artes – A Esquina do Cinema” já teve sua versão final lançada. O que pude encontrar foi este compacto de dezoito minutos que, mais uma vez, me fez chorar emocionada por este cinema que, não só para mim – e isso vocês podem ver no vídeo, logo abaixo – mas para tantas outras pessoas, de tantas gerações e origens diferentes, faz uma falta que é impossível descrever com palavras. Eu mesma já disse muita coisa, e no vídeo minhas palavras encontraram eco e complemento. As lágrimas nos meus olhos também foram compartilhadas por tantos outros frequentadores, das velhinhas que iam lá desde a juventude às pessoas da minha geração, que encontravam ali muito mais que uma alternativa cultural, mas toda uma experiência que em nenhuma outra sala poderia ser vivenciada.

No último dia 23 iniciou-se uma CPI para apuração da regularidade do processo de tombamento.

Aqui, mesmo longe, eu continuo torcendo para que ele volte a existir ali, naquela esquina onde eu já quis morar só pra ficar perto do “meu” cinema.

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Origem e Ano: Brasil, 2011
Direção: Fabio Ornelas
Gênero: Documentário

Filme completo:

Postagem extra. Quarta-feira tem mais.

#95 – O Vampiro da Noite

Um dos posteres mais famosos do filme, com ilustração de Bill Wiggins.

Cada uma das adaptações feitas para “Drácula” de Bram Stoker tem uma característica única – personagens que desaparecem, situações que são adaptadas. Hoje vemos livros serem levados para as telas ganhando várias partes, e talvez uma versão cinematográfica definitiva para Drácula precisasse de pelo menos três filmes para ser contada com fidelidade – poderia ser dividida na estadia de Jonathan Harker no castelo, na luta de Van Helsing e Dr. Seward contra a misteriosa enfermidade de Lucy Westenra e, em sua última parte, a verdade sobre o conde vampiro revelada e a batalha final nos Cárpatos. Talvez pudesse ganhar até mais partes, mas estas são as divisões mais claras que posso ver agora, que finalmente estou lendo o texto integral (em outra ocasião já li um “resumo” feito nos anos 1970, único livro que consegui por volta de 1998, até alguém ter a brilhante ideia de relançar a história completa, já pelos anos 2000).

O Vampiro da Noite traz uma versão tão peculiar quanto a adaptação não autorizada feita em Nosferatu (1922) – personagens assumem funções inusitadas e relações bastante distintas das existentes no livro.
Nesta versão, protagonizada por um dos maiores nomes do cinema de ficção – Christopher Lee – Jonathan Harker e Van Helsing trabalham juntos e já conhecem a verdade sobre o Conde, bem diferente do livro, no qual Harker é um procurador enviado à Transilvânia para auxiliar Drácula na compra de um imóvel na Inglaterra, sem conhecer sua verdadeira natureza.
As três vampiras que habitam o castelo são convertidas em uma única mulher, e Arthur e Lucy, que nunca chegam a realizar seu matrimônio na literatura, são casados e tios de Mina, a noiva de Harker. Achei toda essa mistura muito curiosa.

Esteticamente o filme me lembra bastante as adaptações dos contos de Edgar Alan Poe protagonizadas por Vincent Price, feitas no início dos anos 1960. Uma coisa que gosto nos filmes antigos de horror é que não tem aquele filtro azul utilizado com tanta frequência nos longas de hoje. Nada contra o filtro azul, mas é uma diferença que me agrada.
Esta é a quarta versão da obra de Bram Stoker que assisto, e o filme de 1992 continua sendo o mais fiel, embora o protagonista seja mais romatizado – de uma forma bastante pertinente à época.
Agora o próximo desafio é encontrar os outros sete filmes, gravados nas décadas de 1960 e 1970, onde Lee encarna Drácula novamente.

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O filme teve seu título alterado nos Estados Unidos para não ser confundido com o clássico Drácula de 1931. Outra curiosidade é que o único personagem com quem o vampiro realmente fala é Jonathan Harker.

Foi a terceira adaptação cinematográfica do livro Drácula, de Bram Stoker, publicado em 1897. Entretanto, o vampiro tornou-se um personagem apropriado pelo imaginário popular, e aparece em quase trezentas produções, entre filmes, sequências e episódios de séries.

Christopher Lee volta ao cinema em um filme de vampiros este ano – em sua quinta colaboração com Tim Burton, estará em “Sombras da Noite”, que tem estreia prevista para 22 de junho no Brasil.

Título Original: Dracula, também conhecido como Horror of Dracula, título que recebeu nos EUA.
Origem e Ano: Reino Unido, 1958
Direção: Terence Fisher
Roteiro: Jimmy Sangster
Gênero: Horror
Figurino: Molly Arbuthnot
Música: James Bernard

No IMDB.
No The Pirate Bay.

#94 – Identidade de Nós Mesmo [Caderno de Notas sobre Roupas e Cidades]

Capa do DVD alemão.

A primeira vez que assisti a este documentário, a tradução do título original foi mantida – então para mim, mesmo que o DVD brasileiro tenha vindo com o terrível título “Identidade de Nós Mesmos”, o filme sempre será o “Caderno de Notas sobre Roupas e Cidades”.

Foi exibido em janeiro de 2008, durante um evento chamado Ziguezague que abordava discursos e trabalhos de moda e arte – mas já não acontece mais há cerca de um ano – paralelamente à realização do SPFW. Não pude acompanhar todo o evento, mas consegui ver integralmente esta obra de Wim Wenders, que mostra o trabalho do designer de moda Yohji Yamamoto e traz algumas questões mais filosóficas sobre identidade, cópia, a relação com as cidades e mais alguns temas, que ainda permanecem atuais vinte e três anos depois da gravação.

Em fevereiro do mesmo ano comecei a faculdade de Design de Moda, sob influência de vários exemplos de design de origem japonesa, mas só fui me dar conta disso recentemente, e nem mesmo me recordo de ter utilizado estes elementos em algum trabalho.
No último sábado o filme foi exibido como parte da aula na pós-graduação. É bem interessante revê-lo com mais bagagem, tanto de cinema quanto de moda.

Wim Wenders explora uma duplicação na tela – que reforça a ideia do diálogo entre ele e o estilista – e experimenta a gravação com filmadora eletrônica no lugar da tradicional câmera de cinema, o que dá espaço para a discussão sobre analógico, digital e cópia, sobre como será o futuro.

Em uma mesma cena é possível ver Paris e Tóquio, as mãos do cineasta e do designer em cidades diferentes manuseando um mesmo livro de fotos antigas – pois Yamamoto diz não acreditar no futuro, mas sim no passado, nas coisas que já realmente aconteceram. Os dois também conversam enquanto disputam uma partida de sinuca, em uma estrutura metálica com Paris ao fundo e, ao mostrar trechos do desfile que Yohji preparava durante as filmagens, é como se as modelos desfilassem sobre dois monitores que exibiam as roupas sendo desenvolvidas e seu criador.

A trilha sonora é marcante, enquanto escrevo posso ouvi-la perfeitamente na memória.
Este é um daqueles filmes que considero indispensável tanto pra quem gosta de cinema, pela construção, quanto pra quem gosta de moda, pela importância de Yamamoto. No caso de gostar das duas coisas, se torna mais que obrigatório.

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O documentário foi encomendado a Wim Wenders pelo Centro Nacional de Arte e Cultura Georges Pompidou, de Paris. Inicialmente, o cineasta foi um pouco resistente – o que ele mesmo conta no início do filme – mas cedeu, e acabou percebendo semelhanças entre o trabalho do criador de moda e do criador de cinema.

Ao procurar imagens para ilustrar o post, descobri que Yohji Yamamoto vai dirigir seu primeiro filme, com lançamento previsto para 2014, e que ele foi protagonista de um curta, em 2011, chamado “This is My Dream” dirigido por Theodore Stanley.

Dizem também que o designer nasceu em 03 de outubro [de 1943], mesma data de aniversário de uma certa Natália, que tem se esforçado para ter uma carreira como designer de moda… É uma curiosidade bastante inspiradora!

Título Original: Aufzeichnungen zu Kleidern und Städten
Origem e Ano: Alemanha (Ocidental) e França, 1989
Direção: Wim Wenders
Roteiro: Wim Wenders
Gênero: Documentário
Figurino: Yohji Yamamoto (na verdade suas criações são mostradas, mas não são exatamente figurinos)
Música: Laurent Petitgand

No IMDB.
No Pirate Bay.
No Modaspot

A partir desta semana os posts serão publicados às quartas.

#93 – Os Vingadores – The Avengers

Poster original.

Não sou grande conhecedora dos Vingadores, nem vi todos os filmes individuais que antecederam este longa, mas penso que cumpriu muito bem sua proposta de ser um dos grandes lançamentos comerciais do ano.
Embora não possa avaliar a fidelidade em relação às HQs, os efeitos especiais são muito bons, há alguma dose de humor, heróis com temperamentos diversos, clichês – o que seria dos blockbusters sem eles? – e me rendeu uma experiência bastante curiosa: de um lado estava meu namorado nerd, que adora esse tipo de filme, do outro lado uma das minhas melhores amigas e companheira nos filmes mais “lado B” possíveis. A parte boa é que Os Vingadores conseguiu ser um passatempo agradável para nós três, embora nossos perfis sejam muito diferentes.
Não preciso comentar que o título nacional “Os Vingadores – The Avengers” repete essa mania estranha dos distribuidores por subtítulos, explicações desnecessárias…
Quanto à caracterização, gosto dessa estética de história em quadrinhos, diferente do “realismo” que tentaram imprimir na trilogia X-Men.
O visual da Viúva Negra estava mais interessante em Homem de Ferro 2 – que não assisti ainda – e a camiseta do Black Sabbath vestida por Tony Stark é uma referência sutil e bem interessante: em 1970 a banda lançou a música Iron Man – o nome original de seu alter-ego. A réplica do já modelo pode ser encontrada em diversas lojas virtuais, e a música é esta aqui:

Black Sabbath – Iron Man (Paranoid, 1970)

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Baseado nos quadrinhos da Marvel Comics do grupo homônimo, criado por Stan Lee e Jack Kirby, que apareceu pela primeira vez em 1963.

Precedido pelos títulos individuais Homem de Ferro 1, Homem de Ferro 2, O Incrível Hulk, Capitão América: O Primeiro Vingador e Thor.

Título Original: The Avengers
Origem e Ano: EUA, 2012
Direção: Joss Whedon
Roteiro: Joss Whedon
Gênero: Ação
Figurino: Alexandra Byrne
Música: Alan Silvestri

No IMDB.
No Adoro Cinema.
No TorrentButler.

#92 – Destino (Curta)

Capa do DVD espanhol.

Logo no início o aviso: em 1946 dois lendários artistas iniciaram a parceria para desenvolver um curta. Mais de meio século depois, ele finalmente foi concluído.
Os dois artistas em questão são o pintor surrealista Salvador Dali, que participou de algumas produções cinematográficas, e o animador Walt Disney.
Porém, o projeto foi engavetado, e concluído quase sessenta anos depois, de forma que pode ser considerado uma homenagem póstuma das mais belas a seus idealizadores.

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Indicado ao Oscar de melhor curta animado em 2004.

Título Original: Destino
Origem e Ano: França e EUA, 2003
Direção: Dominique Monfery
Roteiro: Salvador Dalí, John Hench e Donald W. Ernst
Gênero: Animação
Música: Armando Domínguez- compositor da canção “Destino”, que inspirou o roteiro do filme – interpretada por Dora Luz.

Filme completo:

A tradução da letra de “Destino”:

“Leia na palma da minha mão
A linha de minha propriedade e minhas tristezas,
E nunca, nunca me disse
Meu destino do amor.
Ai! Vida, ai!
Por que o destino negro,
Quão difícil o caminho e eu tenho que ir.
Destino, se soubesse como esquecer,
Por favor, volte para adorar,
Eu não posso esquecer.
Caro, soube-me roubar,
Cruel destino, punhal mortal.
Destino, volte ao meu lado,
Eu chorei por ambos
Por esse amor ingrato.”

No IMDB.
Na Wikipedia (em inglês).
No Animation-Animagic.com.
No Deoos (letra).
No Folio do Emerson

#91 – A Outra

Poster original


No Brasil há uma relação muito estranha com a tradução de nomes próprios e títulos de filmes. No caso deste filme, particularmente, penso que não foi utilizado o seu título completo por dois motivos: para vendê-lo como uma história de adultério e porque a maioria das pessoas talvez ignore quem foi Ana Bolena. Além disso, me incomoda um bom tanto essa tradução de nomes próprios de personagens históricos.

Há tempos eu já tinha vontade de assistir “A Outra”, embora não soubesse grande coisa sobre o filme. Sabia que era alguma coisa relacionada ao controverso casamento de Henrique VII com Ana Bolena, que seria a responsável pela ruptura da Inglaterra com a Igreja Católica, mãe da Rainha Elizabeth I e teria um final trágico, acusada de bruxaria e adultério. Os figurinos me pareciam interessantes e as atrizes também – gosto muito da Natalie Portman e da Scarlett Johanson, apesar de achar que colocar tanta beleza em um filme só seja uma estratégia para torná-lo mais vendável.

Como na grande maioria dos filmes “históricos”, os acontecimentos são romanceados e adaptados, mas ainda assim é interessante.
Até então, eu não sabia que Ana Bolena realmente tinha uma irmã – Maria Bolena, que alguns historiadores suspeitam ser mais velha, e não mais nova como afirmado no filme – e que esta também teve um envolvimento com o rei.

Logo no início do filme, o próprio pai de Anne e Mary diz que suas filhas são muito diferentes, e que Anne seria uma criatura mais complicada. Daí em diante, as duas são retratadas com temperamentos distintos: enquanto Mary demonstra um traço mais doce, Anne é mais inquieta. Enquanto elas crescem, os homens da família determinam seu destino – mas os planos, desde sua concepção, começam a apresentar problemas.

Se, por um lado, Ana Bolena se tornou uma rainha controversa, por outro lado é inegável o impacto que exerceu com sua passagem pela corte – tanto a mudança religiosa quanto sua filha, que tornou-se uma rainha legendária, e ambas são elementos muito fortes na cultura britânica. Certamente há outros pontos, mas precisaria de um aprofundamento histórico para comentá-las.

Retomando o filme, a fotografia é muito bonita, as cores compõem cenas luxuosas até mesmo nos momentos mais agressivos. Os figurinos são assinados por Sandy Powell, mais uma vez apresentando um trabalho excelente, como em Entrevista com o Vampiro. Algumas roupas parecem saídas diretamente dos retratos conhecidos – em destaque para o vestido preto e o colar em forma de B que Anne veste mais perto do final – as pérolas, muito em alta neste período, aparecem em diversos momentos e o vestido verde – que não pude apurar se foi recriado a partir de alguma pintura ou possui alguma relação com o significado das cores na época – que é absolutamente lindo e destaca a personagem durante a cena de seu diálogo com o rei quando retorna à corte após um período na França.

Embora não seja tão fiel à História, nem uma obra prima cinematográfica, vale a pena ser visto por essa reconstrução de época e por já poder observar na atuação de Portman alguns traços mais sombrios que, recentemente, tiveram mais espaço em Cisne Negro.

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Baseado no livro A Irmã de Ana Bolena, de Philippa Gregory. O romance, que é o título de maior sucesso da autora, foi publicado em 2002 e, baseando-se nos fatos históricos, conta sob o ponto de vista de Mary Boleyn seu relacionamento com o rei Henrique VIII e, posteriormente, a ascensão de sua irmã, Anne Boleyn, ao posto de rainha consorte.

Título Original: The Other Boleyn Girl
Origem e Ano: Reino Unido e EUA, 2008
Direção: Justin Chadwick
Roteiro: Peter Morgan
Gênero: Drama
Figurino: Sandy Powell
Música: Paul Cantelon

No IMDB.
No Adoro Cinema.
No TorrentButler.

Nova Fase, Blog B, Belas Artes e Retomada

Saudações, leitores!

Eu não imaginava o quanto as mudanças em minha vida neste ano me deixariam offline. Tentei retomar o blog aqui algumas vezes e nunca consegui juntar tempo e disposição – tenho dezenas de rascunhos de posts que nunca mais finalizei para publicar.
Hoje, por engano, postei aqui um texto do Delírio Contemporâneo, uma espécie de blog “lado b”, onde às vezes posto coisas aleatórias. Não era pra ser uma brincadeira de primeiro de abril, juro!

A parte boa é que agora as mudanças chegaram a um ponto que vai me deixar um pouco mais de tempo livre, então provavelmente em abril eu vá conseguir retomar a proposta de um filme por dia. E, se não conseguir, vou pensar em outra estratégia para manter o blog com atualizações periódicas, pois algumas pessoas me disseram que gostaram tanto do blog que não quero deixá-las sem textos novos.
ATUALIZADO 09.04.12: O blog será retomado em Abril como semanário e, ocasionalmente, podem acontecer postagens extra. Mesmo com tempo livre, surgiram outras responsabilidades das quais não posso me esquivar, então a estratégia encontrada para não precisar fechá-lo foi esta.

Aproveito a postagem para divulgar a página no Causes em defesa do Belas Artes, onde as novidades sobre audiências públicas e coisas do tipo estão sendo divulgadas. No último dia 17 estive na manifestação em frente ao prédio, a luta continua e é muito importante que nós, fãs de cinema, façamos parte dessa causa, independente de morarmos em São Paulo ou não.

Agora vou aproveitar a inspiração e ir ali escrever sobre algum filme. Até mais!

Imagem originalmente em Spresso SP.

#87 – O Artista

Poster estadunidense.

Um reflexo gritante da falta de tempo causada pelo TCC é que no final de 2011 eu não assisti quase nada. e 2012 começou com tantas mudanças que, mesmo assistindo vários filmes, não consegui falar sobre nenhum. Lançamentos ou filmes em cartaz? nem sabia de mais nada disso!

Então chegou o Oscar, cheio de indicações a filmes que eu nem sabia direito do que se tratavam, e meio mundo falando sobre o grande vencedor, “O Artista” – que tentei convencer o namorado a ver comigo aqui em Porto Alegre, mas sem sucesso. Quando fomos para São Paulo para minha colação de grau, finalmente convenci o gatinho a ir comigo ao Espaço Unibanco Itaú Augusta para assistir.

Antes de comentar o filme, vou mencionar três incômodos que tive na sessão: do nada o filme parou, as luzes se acenderam e ficamos todos olhando em volta para ver se aparecia alguém do cinema pra falar alguma coisa, mas nada. bem chato. mas pior que isso, só as vozes que estavam vazando da parte de trás da tela para a sala – seria a brigada de incêndio? – e aquelas pessoas não falavam, mas gritavam, de forma que mesmo o filme tendo trilha sonora era possível ouví-las.
E, para completar, havia um pernilongo se banqueteando dos espectadores do filme.

O namorado não gostou, achou o filme lento, mas eu achei lindo, gostei de verdade.

O enredo é simples, aborda a decadência de um astro de filmes mudos de Hollywood(land) com a chegada dos filmes falados e a ascensão de novas estrelas. Algumas pessoas criticaram por ser um filme “americanizado”, embora de origem franco-belga, mas acho meio descabido fazer esse tipo de crítica, pois quantas vezes o cinema conta história originais de outros países? O filme conta uma história com personagens estadunidenses, gostariam que fossem como? Parisienses?
Adorei as cenas de dança e, mesmo não gostando muito que utilizem animais em filmes e espetáculos, não posso negar que o cãozinho do filme é encantador.

O filme é metalinguístico – mostra o cinema dentro do cinema, e todo ele é composto como um filme original da era muda, desde os créditos.
Vi muita gente pontuando a questão de a primeira cena – muda, com as falas sendo mostradas em uma tela de fundo preto, exatamente como os filmes de 1920 – ser de um filme de George Valentin, o protagonista interpretado por Jean Dujardin, onde seu personagem se recusa a falar, assim como posteriormente Valentin se recusa a trabalhar com filmes falados. Uma boa abertura para mostrar a que veio.

Se precisasse definir o filme todo em uma palavra, seria doce, pois há uma doçura enorme no sentimento de Peppy Miller, interpretada por Bérénice Bejo, por seu ídolo, George Valentin, e todo o cuidado que ela tem com ele, mesmo quando se torna uma das estrelas em ascensão – personificando o ideal de “jovem, bela e falante” – enquanto ele vai caindo no esquecimento.

Sem grandes efeitos especiais, há algumas cenas interessantíssimas, onde os efeitos são empregados para mostrar os pesadelos e alucinações que começam a incomodar Valentin, e depois soube que o filme foi gravado em cores, para que trabalhassem melhor os contrastes, e convertido posteriormente para preto e branco. É bastante curioso ver alguns trechos coloridos pela internet.

Acho que o que mais me encantou no todo foi a ousadia de se lançar um filme nos moldes de 1920 quase cem anos depois, quando lançamentos e relançamentos em 3D se alastram pelas salas do mundo todo e efeitos especiais mirabolantes por vezes compensam roteiros fracos. O filme é simples, doce e bonito, transmite muita coisa pela expressão dos atores, figurinos e trilha sonora, e talvez tenha ganhado todos os prêmios que ganhou justamente por trazer de volta o encantamento que o cinema vem perdendo no meio dos excessos.

Vou ver de novo, com certeza.

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Indicado a 10 Oscars, levou 5 prêmios: Figurino, Diretor, Trilha Sonora Original, Ator e Filme. Indicado a 12 BAFTA, ganhou 7: Filme, Diretor, Ator, Roteiro Original, Trilha Sonora Original, Fotografia e Figurino.

Algumas cenas.

Mais uma cena – bem bonita, por sinal.

Título Original: The Artist
Origem e Ano: França e Bélgica, 2011
Direção: Michel Hazanavicius
Roteiro: Michel Hazanavicius
Gênero: Drama
Figurino: Mark Bridges
Música: Ludovic Bource

No IMDB.
No Adoro Cinema.
No TorrentButler.

Imagens: Moviespad, Sarahism.

Belas Artes – A Luta Continua em 2012

Bom dia, caros!

Como sabem, este blog tem uma profunda ligação afetiva com o cine Belas Artes, um dos principais cinemas de rua de São Paulo e que atualmente é centro de uma batalha entre a sociedade e a especulação imobiliária.
No fim do ano passado, os órgãos responsáveis por tombamentos em esfera municipal e estadual avaliaram porcamente a solicitação feita, considerando que o “imóvel não tem valor arquitetônico” por já ter sofrido modificações, invés de considerar que o patrimônio a ser tombado é imaterial, pois trata da manutenção da atividade cinematográfica no espaço, que se tornou durante tantas décadas de atividade muito mais que um mero espaço de exibição.
Quando a esperança de termos nosso cinema de volta já estava quase se extinguindo, surgiu uma nova chance: uma liminar solicitando reavaliação dos processos, para evitar que durante o recesso dos órgãos públicos o proprietário do imóvel o demolisse.

Há uns dois dias encontrei um manifesto em defesa do cinema – disponível no blog da Raquel Rolnik e no Facebook – e hoje saiu uma notícia no Estado, e eu não poderia deixar de registrar por aqui.

Enviem e-mails para participar do manifesto, compartilhem, retuitem. A produção intelectual brasileira já é bastante desestimulada, os espaços de exibição que não concentram blockbusters são uma minoria que deve permanecer ativa e central, não marginalizada ou em espaços impróprios.
Se não defendermos estes lugares, além de apagar a memória de nossas cidades, estaremos colaborando para o nivelamento por baixo dos filmes em cartaz – vejam como os filmes dublados já estão ganhando espaço, nos privando muitas vezes de ter a opção de ter o áudio original. E os filmes nacionais mais alternativos, que muitas vezes tem espaço naturalmente em salas como o Belas Artes, precisam de COTAS para serem exibidos nos grandes complexos.

Por hoje fica essa dica. Espero que em breve essa novela que já se arrasta por um ano tenha um final feliz, e que possamos comemorar com um Noitão na reabertura do Belas Artes.

#77 – O Homem que Caiu na Terra

Poster horizontal original.

Retomo o blog testando o layout novo e temporariamente sem numerar o filme para poder organizar as postagens “anteriores” em breve.

Hoje inauguro uma das novas ideias que comentei recentemente: além de postar informações estritamente sobre o filme, farei alguns comentários sobre minha vivência com outras mídias que se relacionam. O filme de hoje “O Homem que Caiu na Terra” é protagonizado pelo deus camaleão da música pop – muso, divo, inspirador da minha vida – David Bowie.
É difícil considerá-lo apenas um músico: Bowie estudou mímica (elemento presente muitas vezes em seus show e que possivelmente influenciou sua carreira como ator), canta, toca incontáveis instrumentos, criou personagens, influenciou a moda (e outras pessoas que também influenciaram, como Madonna e Lady Gaga) e, na minha humilde opinião de fã e observadora, é uma das maiores figuras da cultura popular ocidental no século XX. Um baita artista.

Em 14 de janeiro de 1977, Bowie lançou seu primeiro disco da Berlin Trilogy – o álbum Low hoje completa 35 anos.

O longa de Nicolas Roeg é um marco na carreira de ator de Bowie, pois foi a primeira vez que ele protagonizou um filme – que invadiu sua obra musical: a capa dos álbuns Station to Station (1976) e Low (1977) utilizam fotos de “O Homem que Caiu na Terra”. Nesta época, Bowie teve o visual que eu acho mais lindo de todos – o cabelo laranja e a persona do Thin White Duke. Foi uma época controversa: musicalmente atingia um ponto absurdamente alto com o lançamento do excelente Station to Station e a trilogia berlinense – Low, “Heroes” e Lodger – por outro lado estava tão viciado em cocaína que mal se lembra das gravações do álbum de 1976.



Voltando ao filme, como tantos outros da década de 1970, sua narrativa é bem estranha. Uma ficção científica perturbadora em alguns momentos, que conta a história do alienígena Thomas Jerome Newton, que vem à Terra em busca de uma solução para a seca em seu planeta. Chegando aqui, envolve-se nas complicadas relações humanas e desta forma coloca sua vida e sua missão em risco. O filme é longo e silencioso – uma característica que os filmes europeus apresentam com frequência e me agrada muito.
Até alguns anos atrás era bastante difícil conseguir encontrá-lo, o dia que encontrei o VHS nas prateleiras da Start 94 foi como ganhar na loteria, e foi um prêmio ainda maior quando começou a ser distribuído em DVD nacional. Consegui comprar o meu em uma promoção sensacional, e agora já foi lançado até em blue ray no exterior.
É obrigatório para fãs de Bowie e super recomendado para fãs do cinema setentista.

[mais]

O roteiro foi inspirado no livro homônimo do escritor americano Walter Tevis, publicado em 1963, e não encontrei tradução para o português. Em 1987 teve uma versão para a televisão, com diversas alterações, inclusive de nomes de personagens.
Premiações

Título Original: The Man Who Fell to Earth
Origem e Ano: Reino Unido, 1976
Direção: Nicolas Roeg
Roteiro: Paul Mayersberg
Gênero: Ficção Científica
Figurino: May Routh
Música: John Phillips e Stomu Yamashta

No IMDB.
No TorrentButler.

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