#61 – O Artista

Poster estadunidense.

Um reflexo gritante da falta de tempo causada pelo TCC é que no final de 2011 eu não assisti quase nada. e 2012 começou com tantas mudanças que, mesmo assistindo vários filmes, não consegui falar sobre nenhum. Lançamentos ou filmes em cartaz? nem sabia de mais nada disso!

Então chegou o Oscar, cheio de indicações a filmes que eu nem sabia direito do que se tratavam, e meio mundo falando sobre o grande vencedor, “O Artista” – que tentei convencer o namorado a ver comigo aqui em Porto Alegre, mas sem sucesso. Quando fomos para São Paulo para minha colação de grau, finalmente convenci o gatinho a ir comigo ao Espaço Unibanco Itaú Augusta para assistir.

Antes de comentar o filme, vou mencionar três incômodos que tive na sessão: do nada o filme parou, as luzes se acenderam e ficamos todos olhando em volta para ver se aparecia alguém do cinema pra falar alguma coisa, mas nada. bem chato. mas pior que isso, só as vozes que estavam vazando da parte de trás da tela para a sala – seria a brigada de incêndio? – e aquelas pessoas não falavam, mas gritavam, de forma que mesmo o filme tendo trilha sonora era possível ouví-las.
E, para completar, havia um pernilongo se banqueteando dos espectadores do filme.

O namorado não gostou, achou o filme lento, mas eu achei lindo, gostei de verdade.

O enredo é simples, aborda a decadência de um astro de filmes mudos de Hollywood(land) com a chegada dos filmes falados e a ascensão de novas estrelas. Algumas pessoas criticaram por ser um filme “americanizado”, embora de origem franco-belga, mas acho meio descabido fazer esse tipo de crítica, pois quantas vezes o cinema conta história originais de outros países? O filme conta uma história com personagens estadunidenses, gostariam que fossem como? Parisienses?
Adorei as cenas de dança e, mesmo não gostando muito que utilizem animais em filmes e espetáculos, não posso negar que o cãozinho do filme é encantador.

O filme é metalinguístico – mostra o cinema dentro do cinema, e todo ele é composto como um filme original da era muda, desde os créditos.
Vi muita gente pontuando a questão de a primeira cena – muda, com as falas sendo mostradas em uma tela de fundo preto, exatamente como os filmes de 1920 – ser de um filme de George Valentin, o protagonista interpretado por Jean Dujardin, onde seu personagem se recusa a falar, assim como posteriormente Valentin se recusa a trabalhar com filmes falados. Uma boa abertura para mostrar a que veio.

Se precisasse definir o filme todo em uma palavra, seria doce, pois há uma doçura enorme no sentimento de Peppy Miller, interpretada por Bérénice Bejo, por seu ídolo, George Valentin, e todo o cuidado que ela tem com ele, mesmo quando se torna uma das estrelas em ascensão – personificando o ideal de “jovem, bela e falante” – enquanto ele vai caindo no esquecimento.

Sem grandes efeitos especiais, há algumas cenas interessantíssimas, onde os efeitos são empregados para mostrar os pesadelos e alucinações que começam a incomodar Valentin, e depois soube que o filme foi gravado em cores, para que trabalhassem melhor os contrastes, e convertido posteriormente para preto e branco. É bastante curioso ver alguns trechos coloridos pela internet.

Acho que o que mais me encantou no todo foi a ousadia de se lançar um filme nos moldes de 1920 quase cem anos depois, quando lançamentos e relançamentos em 3D se alastram pelas salas do mundo todo e efeitos especiais mirabolantes por vezes compensam roteiros fracos. O filme é simples, doce e bonito, transmite muita coisa pela expressão dos atores, figurinos e trilha sonora, e talvez tenha ganhado todos os prêmios que ganhou justamente por trazer de volta o encantamento que o cinema vem perdendo no meio dos excessos.

Vou ver de novo, com certeza.

[mais]

Indicado a 10 Oscars, levou 5 prêmios: Figurino, Diretor, Trilha Sonora Original, Ator e Filme. Indicado a 12 BAFTA, ganhou 7: Filme, Diretor, Ator, Roteiro Original, Trilha Sonora Original, Fotografia e Figurino.

Algumas cenas.

Mais uma cena – bem bonita, por sinal.

Título Original: The Artist
Origem e Ano: França e Bélgica, 2011
Direção: Michel Hazanavicius
Roteiro: Michel Hazanavicius
Gênero: Drama
Figurino: Mark Bridges
Música: Ludovic Bource

No IMDB.
No Adoro Cinema.
No TorrentButler.

Imagens: Moviespad, Sarahism.

4 comentários sobre “#61 – O Artista

  1. Belo filme!
    Além de tudo isso que vc escreveu, esse filme discute algo muito importante:o futuro do cinema. Estamos numa época complicada para a indústria do cinema e isso gera muitas teorias (repare que a maioria dos filmes indicados ao Oscar eram metalinguísticos). Muitos acreditam que o cinema irá acabar.Nesse caso, é utilizado esse exemplo da transição do mudo pro falado. O filme vem com uma mensagem positiva: o cinema nunca acabará, ele irá se adaptar. Como ocorreu na transição, o cinema não acabou, ele se tornou falado, foi um fim de um “ciclo”.
    Foi muito inteligente fazer um filme pb e mudo numa época em que efeito especial de ponta é uma obrigação.Não entendo essa busca pelo tal do realismo absoluto e descabido (pq cinema não é realidade).Esse filme nadou contra a corrente e se destacou, claro.

  2. Belo filme!
    Além de tudo isso que vc escreveu, esse filme discute algo muito importante:o futuro do cinema. Estamos numa época complicada para a indústria do cinema e isso gera muitas teorias (repare que os dois filmes mais premiados no Oscar eram metalinguísticos, além de outros indicados que tb eram). Muitos acreditam que o cinema irá acabar.Nesse caso, é utilizado esse exemplo da transição do mudo pro falado. O filme vem com uma mensagem positiva: o cinema nunca acabará, ele irá se reinventar. Como ocorreu na transição, o cinema não acabou, ele se tornou falado, foi um fim de um “ciclo”.
    Foi muito inteligente fazer um filme pb e mudo numa época em que efeito especial de ponta é uma obrigação.Não entendo essa busca pelo tal do realismo absoluto e descabido (pq cinema não é realidade).Esse filme nadou contra a corrente e se destacou, claro.

  3. Este é um filme de encher os olhos, encaro como uma homenagem ao cinema. Não creio que o cinema morreu, muito menos os livros, tampouco a arte.
    Saudades dos nossos filmes em SP.
    Um beijo!

  4. Pingback: #85 – Ed Wood | cinematic

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