#84 – Cidade das Sombras

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Poster espanhol

Ou “o que é essa merda de tradução apelona?”. Mas vamos lá, desabafada a revolta, vamos ao filme.
Ele foi visto em uma das situações mais incomuns que já vi um filme na vida.
Isso foi no mês passado, aproveitamos que aqui no Rio Grande do Sul o dia 20 de setembro é feriado e fomos visitar meus avós no Paraná. Duas horas de voo naqueles aviões pequenos, que eu apelidei de teco-teco, quatro dias em Maringá, que pode até não ser a cidade fantasma que eu penso, mas é muito ruim na divulgação do que tem pra fazer. Calorão, uma chuvinha que ameaçava cair e nunca vinha de fato, até que na segunda de manhã, bem na hora do nosso voo, o aeroporto estava fechado por condições climáticas. Daí M. sugeriu que assistíssemos alguma coisa, e comentou que ficava imaginando como eu contaria essa história e que achava curioso ver referências a ele aqui no blog. Viu, amor, mais uma!
Um dos poucos filmes no computador que já estava com legendas neste dia, ainda que em inglês, era o City of Ember, que no Brasil recebeu esse título clichê que eu só descobri depois. E o tempo foi passando, voos foram cancelados, e nós lá, na sala de embarque, assistindo aventurinha juvenil. O filme acabou pouco antes do aeroporto abrir e nosso voo ser anunciado.
É bem parecido com aqueles livros de aventura e investigação que a gente lê na adolescência, com personagens em seus 14, 15 anos enfrentando perigos e conspirações. Depois também descobri que o roteiro foi escrito por Caroline Thompson, a mesma roteirista de Edward Mãos de Tesoura, mas não espere neste aqui o mesmo marco na cultura pop que foi sua colaboração com Tim Burton – repetida, inclusive, em O Estranho Mundo de Jack, produzido pelo diretor, e A Noiva Cadáver.
Ember é uma cidade subterrânea e por isso extremamente dependente de luz elétrica, mas a energia e os alimentos parecem à beira de um colapso – que, paralelamente a uma história de poder usurpado, pode ter a solução descoberta por uma jovem dupla.
Enquanto escolhia o trailer também me ocorreu que algumas pontas ficaram soltas na história, mas de uma forma o geral o filme cumpriria perfeitamente a função de uma boa Sessão da Tarde, como a dos idos anos 90.
Um ponto que merece nota é que Martin Landau e Bill Murray aparecem neste filme e também colaboraram em outros trabalhos de Tim Burton.

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Baseado no livro homônimo de Jeanne Duprau, publicado em 2003, que foi o primeiro volume de uma série de quatro histórias.

Título Original: City of Ember
Origem e Ano: EUA, 2008
Direção: Gil Kenan
Roteiro: Caroline Thompson
Gênero: Aventura
Figurino: Ruth Myers
Música: Andrew Lockington

No IMDB.
No TorrentButler.

#82 – Deixa Ela Entrar

Poster original sueco
Poster original sueco

Seguindo no ritmo sombrio de outubro, o filme de hoje é, facilmente, um dos meus favoritos.
Quando chegou ao Brasil em 2009, o longa sueco trazia junto seu sucesso, e foi quase impossível vê-lo no cinema – poucas salas exibem filmes de países fora do eixo USA-UK, mesmo em São Paulo – as filas eram imensas e aos poucos os horários foram ficando ruins para quem trabalhava e estudava. Quase fui ver com a G. no Espaço Unibanco, na Augusta, mas imaginem se a fila não tomava boa parte da calçada? Consegui assistir em uma tarde com a J., no cinema do Conjunto Nacional, com direito a horário errado no site e perder uns dois minutos no início do filme. Tudo bem, não tiraram a qualidade do que viria a seguir.
A segunda vez que assisti foi um momento único na minha vida – estava na Suécia, a paisagem nas ruas era cheia de neve, como no próprio filme, e algumas coisinhas eram tão… suecas! Só não fui na região onde o filme foi gravado pois era bem residencial e longe, então abri mão. Desta vez, M. viu comigo. Ele deve me achar meio maluca com essa minha paixão por vampiros, mas acaba me acompanhando quando invento de assistir algo assim.
É muito interessante a originalidade da história, sem referências a Drácula ou definições de Anne Rice. Os protagonistas têm cerca de 12 anos – inclusive a vampira – e o mais apavorante nisso são as cenas de bullying, demonstrando a crueldade já desperta tão cedo. Eli, a “jovem” vampira, é uma figura que não corresponde à divisão bem-mal, e alguns críticos mencionavam até mesmo sua androginia, cheguei a ler até um comentário sobre uma possível referência homossexual na relação que ela desenvolve com Oskar, o menino agredido pelos colegas de escola. Acho esse tipo de comentário tão chato – ocasionalmente eu tropeço em resenhas que enxergam “gay” em tudo. Imagina o que essa gente não diria de Cavaleiros do Zodíaco, então? Uma coisa muito interessante da Suécia é que por lá a questão da sexualidade das pessoas é muito melhor resolvida do que aqui no nosso país – infelizmente para nós. Por lá as pessoas tratam por algo que traduzo livremente como “seu par” invés de “sua mulher” ou “seu marido” – em resumo, não importa. E em uma cena, Eli pergunta se Oskar iria gosta dela, mesmo que ela não fosse uma menina – e sim. Okay, pelo que conheci dos suecos, é isso, fim. Sem drama sobre a sexualidade do garoto.

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Foi indicado ao BAFTA de melhor filme estrangeiro, recebeu 63 prêmios e 23 indicações.

O roteiro foi escrito pelo próprio autor da história que o originou – John Ajvide Lindqvis publicou o livro em 2004 e, apesar do sucesso enorme do filme (que até ganhou um remake estadunidense dois anos após a estreia e que eu me recuso com veemência a assistir, já que fiquei com uma péssima impressão desse prazo), só chegou às livrarias brasileiras em 2013. Veja aqui a edição.

Título Original: Låt den rätte komma in
Origem e Ano: Suécia, 2008
Direção: Tomas Alfredson
Roteiro: John Ajvide Lindqvist
Gênero: Horror
Figurino: Maria Strid
Música: Johan Söderqvist

No IMDB.
No Adoro Cinema.
No PirateBay.
No Youtube, integral e legendado em português.

#62 – A Outra

Poster original

No Brasil há uma relação muito estranha com a tradução de nomes próprios e títulos de filmes. No caso deste filme, particularmente, penso que não foi utilizado o seu título completo por dois motivos: para vendê-lo como uma história de adultério e porque a maioria das pessoas talvez ignore quem foi Ana Bolena. Além disso, me incomoda um bom tanto essa tradução de nomes próprios de personagens históricos.

Há tempos eu já tinha vontade de assistir “A Outra”, embora não soubesse grande coisa sobre o filme. Sabia que era alguma coisa relacionada ao controverso casamento de Henrique VII com Ana Bolena, que seria a responsável pela ruptura da Inglaterra com a Igreja Católica, mãe da Rainha Elizabeth I e teria um final trágico, acusada de bruxaria e adultério. Os figurinos me pareciam interessantes e as atrizes também – gosto muito da Natalie Portman e da Scarlett Johanson, apesar de achar que colocar tanta beleza em um filme só seja uma estratégia para torná-lo mais vendável.

Como na grande maioria dos filmes “históricos”, os acontecimentos são romanceados e adaptados, mas ainda assim é interessante.
Até então, eu não sabia que Ana Bolena realmente tinha uma irmã – Maria Bolena, que alguns historiadores suspeitam ser mais velha, e não mais nova como afirmado no filme – e que esta também teve um envolvimento com o rei.

Logo no início do filme, o próprio pai de Anne e Mary diz que suas filhas são muito diferentes, e que Anne seria uma criatura mais complicada. Daí em diante, as duas são retratadas com temperamentos distintos: enquanto Mary demonstra um traço mais doce, Anne é mais inquieta. Enquanto elas crescem, os homens da família determinam seu destino – mas os planos, desde sua concepção, começam a apresentar problemas.

Se, por um lado, Ana Bolena se tornou uma rainha controversa, por outro lado é inegável o impacto que exerceu com sua passagem pela corte – tanto a mudança religiosa quanto sua filha, que tornou-se uma rainha legendária, e ambas são elementos muito fortes na cultura britânica. Certamente há outros pontos, mas precisaria de um aprofundamento histórico para comentá-las.

Retomando o filme, a fotografia é muito bonita, as cores compõem cenas luxuosas até mesmo nos momentos mais agressivos. Os figurinos são assinados por Sandy Powell, mais uma vez apresentando um trabalho excelente, como em Entrevista com o Vampiro. Algumas roupas parecem saídas diretamente dos retratos conhecidos – em destaque para o vestido preto e o colar em forma de B que Anne veste mais perto do final – as pérolas, muito em alta neste período, aparecem em diversos momentos e o vestido verde – que não pude apurar se foi recriado a partir de alguma pintura ou possui alguma relação com o significado das cores na época – que é absolutamente lindo e destaca a personagem durante a cena de seu diálogo com o rei quando retorna à corte após um período na França.

Embora não seja tão fiel à História, nem uma obra prima cinematográfica, vale a pena ser visto por essa reconstrução de época e por já poder observar na atuação de Portman alguns traços mais sombrios que, recentemente, tiveram mais espaço em Cisne Negro.

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Baseado no livro A Irmã de Ana Bolena, de Philippa Gregory. O romance, que é o título de maior sucesso da autora, foi publicado em 2002 e, baseando-se nos fatos históricos, conta sob o ponto de vista de Mary Boleyn seu relacionamento com o rei Henrique VIII e, posteriormente, a ascensão de sua irmã, Anne Boleyn, ao posto de rainha consorte.

Título Original: The Other Boleyn Girl
Origem e Ano: Reino Unido e EUA, 2008
Direção: Justin Chadwick
Roteiro: Peter Morgan
Gênero: Drama
Figurino: Sandy Powell
Música: Paul Cantelon

No IMDB.
No Adoro Cinema.
No TorrentButler.

#24 – Crepúsculo

Poster original.

Já que o último filme era polêmico e tratava de relacionamentos pouco convencionais, vou entrar aqui na série “Crepúsculo”.
Antes que alguém se desespere, não estou comparando nem nivelando os dois filmes.

Como já mencionei em outro post, eu me aborreço muito com pessoas que não usam o senso crítico, e isso inclui “haters”, que se limitam a falar mal de alguma coisa só porque um grupo de pessoas está falando. Por isso, decidi ver “Crepúsculo”. Não para “falar mal conhecendo”, mas sim para compreender porque tanta polêmica sobre uma série que me parecia tão água-com-açúcar, apesar de apresentar vampiros que destruiam o mito que mais me encantou por toda a vida.

Quando li a sinopse, tive a impressão que Stephanie Meyer estava plagiando um livro brasileiro muito mais interessante que a série dela: “Os Noturnos“, de Flávia Muniz. Depois, tentei ler o livro e não consegui, pois a construção da história lembrava muito as coisas que eu escrevia aos doze anos – francamente imaturo para ser considerado literatura.

Indo direto ao filme: como vi outro da mesma diretora, posso dizer que “Crepúsculo” poderia ser melhor com outra direção. Não muito melhor, na realidade, pois o enredo é fraquinho e traz alguns momentos risíveis, como na cena que Edward revela à Bella que pode ler pensamentos, mas não os dela – me ocorreu na hora que era porque a mocinha não pensava. As pausas dramáticas são pedantes. A coleção de diplomas do segundo grau na parede da casa dos vampiros é o tipo de coisa que deveria ter sido excluída na edição, é desnecessária até como “fator humorístico”. E o “vampiro que brilha no sol” e que não bebe sangue humano me faz pensar porque a autora decidiu falar sobre vampiros se não utiliza praticamente nenhuma característica deles. Poderia utilizar outros elementos sobrenaturais, criar algo novo, mas da forma como o universo de “Crepúsculo” é construído, a impressão que eu tenho é que a chance de fazer algo realmente interessante foi perdida.
E porque diabos a série tem tantos fãs? Simples: é fácil de assimilar. Tem protagonistas “certinhos e bonitinhos”, nada é muito complicado – ao contrário de “Último Tango em Paris“, por exemplo.

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Adaptação do livro Crepúsculo, de Stephenie Meyer, publicado em 2005.

Direção: Catherine Hardwicke
Figurino: Wendy Chuck
Origem: EUA
Gênero: Romance
Roteiro: Melissa Rosenberg
Música: Carter Burwell

No IMDB.
No Adoro Cinema.
No TorrentButler.