#83 – Gilda

Poster ilustrado original

O filme de hoje é uma homenagem a uma das minhas atrizes preferidas, que se estivesse viva, completaria 95 anos. Rita morreu no ano em que eu nasci, e eu só soube de sua existência em 2006. E Gilda foi o primeiro filme dela que vi, e revi umas 3 vezes na sequência, encantada. Embora a personagem tenha assombrado a atriz durante o resto de sua vida – uma de suas frases mais famosas é “Every man I have known has fallen in love with Gilda and wakened with me”.

O slogan do filme é “Nunca houve mulher como Gilda”, mas houve Rita Hayworth, e sua história de vida talvez seja ainda mais forte do que a de sua personagem mais importante – a jovem dançarina, extremamente tímida, mas que se tornou uma das atrizes mais importantes de sua época, passou por vários casamentos frustrados, inclusive com o também extremamente famoso Orson Welles, e terminou seus dias vítima do mal de Alzheimer.

Como eu, Margarita é libriana de outubro, e várias outras coisinhas me hipnotizam quando a vejo em cena.

Gilda foi lançado em 1946, e a história tem a Argentina durante a Segunda Guerra Mundial como cenário. A classificação dele como noir é um pouco controversa, mas quando a protagonista começa a exercer todo seu poder de sedução sobre Johnny Farrel, que também narra o filme, pouco importam os rótulos.

Eu poderia passar semanas escrevendo apenas sobre este filme, mas vou parar agora – assistam!

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Segundo o IMDB, na cena em que interpreta Put the Blame on Mame, Rita precisou usar um corset, pois sua primeira filha havia nascido pouco antes das filmagens. O vestido e as luvas usados na cena são um dos figurinos mais memoráveis de Hollywood.

Uma das cenas mais famosas da história do cinema.
Partitura da canção “Put the Blame on Mame”, interpretada na sequência da foto acima.

Título Original: Gilda
Origem e Ano: EUA, 1946
Direção: Charles Vidor
Roteiro: Marion Parsonnet, baseado em história de E.A. Ellington adaptada por Jo Eisinger
Gênero: Noir
Figurino: Jean Louis (vestidos)
Música: Marlin Skiles e M.W. Stoloff (direção musical)

No IMDB.
No Adoro Cinema.
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#78 – Orlando – A Mulher Imortal

Poster horizontal – supostamente o original

Assisti Orlando em abril do ano passado, durante as aulas de História da Moda na pós-graduação. É interessante relembrar este filme agora por algumas questões bem pessoais: ando muito envolvida com a história do vestuário, tanto por ter começado a colaborar com blog do Picnic Vitoriano de Porto Alegre quanto por estar trabalhando no meu TCC – sob orientação da mesma professora que nos mostrou este filme.

A escolha para protagonista não podia ser melhor – Tilda Swinton empresta sua aparência andrógina ao ambíguo Orlando, “a mulher imortal”, que atravessa os séculos e exibe na tela as belíssimas recriações da indumentária de cada época feitas por Sandy Powell, uma das mais talentosas criadoras de Hollywood deste tipo de figurino.

Provavelmente assistirei outra vez assim que sair desta fase de TCC, tanto pelo enredo inusitado quanto pelas roupas maravilhosas.

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Indicado ao Oscar em duas categorias – Cenografia e Figurino.

Versão cinematográfica do romance Orlando, de Virgínia Woolf, publicado originalmente em 1928. No Brasil, em 1989, foi realizada uma adaptação teatral da obra, que teve uma nova montagem em 2004.

Título Original: Orlando
Origem e Ano: Reino Unido, Rússia, França, Itália e Holanda, 1992
Direção: Sally Potter
Roteiro: Sally Potter
Gênero: Drama
Figurino: Sandy Powell
Música: David Motion e Sally Potter

No IMDB.
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#75 – O Grande Gatsby

Poster horizontal
Poster horizontal

Assistimos O Grande Gatsby no cinema há um tempo e é um bom filme, sem dúvidas.

A estética e os figurinos são excelentes, mas não esperava menos de um filme do Baz Luhrmann depois de Moulin Rouge. E, a meu ver, mais uma vez DiCaprio mostrou que seu talento vai além de um rostinho bonito naufragando com o Titanic.

Porém, em alguns pontos o filme é parecido demais com o longa protagonizado por Nicole Kidman e Ewan McGregor em 2001 – as festas opulentas com frequentadores beirando à histeria, a narração em flashback, o protagonista em busca de um sonho e outros tipos sociais, como o escritor, o antagonista rico e agressivo, a mulher no centro da disputa…

Apesar disso, não creio que um filme que conte bem a história a qual se propõe deva ser reduzido a “parece com esse, parece com aquele”, até por estarmos em uma época cheia de remakes que considero extremamente desnecessários – como My Fair Lady e O Corvo, que não se justificam a menos que apresentem a história de uma forma que faça valer a pena.

Não vi as outras versões do Gatsby, mas esta me deixou com vontade de ler o livro que o originou e colocou a trilha sonora entre uma das que mais gostei nos últimos tempos.

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Baseado no livro homônimo de F. Scott Fitzgerald, publicado em 1925 e considerado uma das maiores obras da literatura estadunidense. Esta é a quarta versão do livro para o cinema, as anteriores foram realizadas em 1926, 1949 e 1974.

Catherine Martin foi responsável pelos figurinos de outros filmes de Baz Luhrmann – Vem Dançar Comigo (produção), Romeu + Julieta, Moulin Rouge – Amor em Vermelho e Austrália – além de seus curtas.

A trilha sonora do filme é sensacional, dá um tom “anos 20” a músicas muito atuais – de Amy Winehouse a Beyoncé. Ouça aqui.

Título Original: The Great Gatsby
Origem e Ano: Austrália e EUA, 2013
Direção: Baz Luhrmann
Roteiro: Baz Luhrmann e Craig Pearce
Gênero: Drama
Figurino: Catherine Martin
Música: Craig Armstrong

No IMDB.
No Adoro Cinema.
No TorrentButler.

Segunda semana em Estocolmo

E lá vamos nós de novo!
Acho que estamos aproveitando a viagem, afinal, eu acabo nem tendo tempo de escrever aqui.
A seguir outro post gigantes, nosso diário da semana passada:

Posteres na Cinemateca - foto de Natália Santucci (pra não dizer que não tirei nenhuma).
Posteres na Cinemateca – foto de Natália Santucci (pra não dizer que não tirei nenhuma).

Segunda – 18.02
Na segunda fomos para Valhalla. Mas não se preocupem, não foi o salão dos guerreiros caídos, fomos passear em dois pontos nos arredores de uma grande avenida de Estocolmo, a Valhallavägen – que descobri depois que é uma das ruas mais longas da cidade e tem grande valor arquitetônico. Na região, visitamos o Estádio Olímpico, inaugurado nos Jogos Olímpicos de 1912. Eu gostei bastante, e foi uma pena não ter grandes habilidade fotográficas. O estádio é bem pequeno, tem torres altas com mastros saindo de esculturas do tijolo que lembram proas de barcos. Havia pessoas treinando corrida na pista atlética, que pelo visto para este fim tem a neve retirada e amontoada ao redor e, neste montinho, havia pessoas treinando corrida com esqui. As estruturas de ferro, como as catracas de entrada, tem um estilo bonito, que denunciam a idade da construção. Também há as esculturas, fora do espaço esportivo, que dariam fotos incríveis no clima sombrio do inverno.
Saindo dali, fomos à sede do Instituto Sueco de Cinema – a Cinemateca – que é um prédio interessantíssimo, tinha alguns figurinos expostos e, embora não tenhamos assistido nada por ali, há duas salas de exibição, biblioteca e um andar relacionado a alguma faculdade de moda – que agora eu preciso realmente descobrir qual é para, quem sabe no futuro, estudar aqui por uns tempos.

Terça – 19.02
Na terça voltamos aos arredores da Cinemateca, pois a Lele descobriu um concerto da orquestra da Swedish Radio Symphony Orchestra. Fomos ao complexo que reúne a rádio e o canal de televisão SVT, mas na recepção da rádio descobrimos que os ingressos e as apresentações eram na Berwaldhallen, uma sala de concertos perto dali. Não chegamos a acompanhá-la no dia do concerto, mas valeu a visita, pois o prédio era bem interessante – a parte de concreto da fachada fica iluminada com luzes coloridas e a sala de ensaios com paredes de vidro nos permitiu ver um pouquinho o ensaio da orquestra.
Tanto na segunda quanto na terça pegamos ônibus para voltar para casa, o que nos permitiu ver mais um pedacinho da cidade. Depois me concentrei em concluir e enviar um projeto para seleção.

Quarta – 20.02
Combinamos de ir ao Nordiska Museet, finalmente! Como um resfriado estava ameaçando me pegar, fiquei em casa o dia todo, e combinei de encontrar os outros direto no museu. A parte engraçada foi que, saindo do metrô, peguei uma rua errada e tive que usar meu inglês “macarroni” para conseguir pedir uma informação. Deu certo, mas me atrasei e quando cheguei ao museu o pessoal já estava lá há algum tempo. Fiquei chateada, não gosto de me atrasar e era eu quem estava infernizando para ir a este museu, por causa da exposição “Power of Fashion – 300 years of clothing”. Sinceramente, acho que eu poderia MORAR dentro daquele museu!
Como eu já tinha comparado antes, ele é tipo o Museu da Casa Brasileira – reúne objetos de uso cotidiano e se torna uma aula de história do design em diversos segmentos. Havia móveis, louças, roupas e até mesmo uma cabana ali dentro – o fundador do Skansen e do Nordiska é o mesmo, então isso faz um sentido enorme, no fim das contas.
Fiquei maravilhada com as cenas compostas recriando os ambientes e temas – que iam desde uma sala de jantar a um funeral – além das roupas e objetos dos Sami, um grupo étnico indígena da região da Lapônia, as casas de bonecas de vários séculos, a exposição de jóias e de cabelo, em um ambiente que recriava um salão dos anos 1970 e tinha até algumas peças de roupas feitas com fios. Comprei o catálogo da “Power of Fashion”, pois não consigo imaginar um livro falando sobre o significado das roupas na Suécia circulando pelo Brasil. E quase comprei o das jóias também, mas mantive os gastos sob controle.
Saindo de lá, passamos no supermercado para comprar alguma coisa para beliscar e fomos ao ao Lilla Hotellbaren, mas não ficamos muito tempo. As coisas eram muito caras e a banda que começou a tocar não nos agradou, então fomos caminhar pela região, que ainda não conhecíamos.
É um pedaço mais boêmio da cidade, com bares, casas de show, cinemas – inclusive o Victoria, em uma esquina e com letreiro em neon, onde são exibidos alguns filmes da programação da Cinemateca. Eu realmente gostaria de ter conhecido um cinema daqui por dentro. Andamos até bem perto de uma ponte que leva aos arredores do Ericsson Globe, mas aparentemente não era um lugar muito bom para circular a pé, então tiramos algumas fotos e retornamos dali.

Quinta – 21.02
Acho que a “maldição da quinta-feira” me pegou. Pela segunda semana consecutiva a quinta não foi um dia bom para mim, achei que fosse morrer de enxaqueca e náusea – um viva à TPM. Passamos rapidinho por um mercado de especiarias e produtos estrangeiros, parecido com os mercados públicos centrais das capitais brasileiras, bem perto da T-Centralen. O Miguel voltou para casa comigo, pois eu estava realmente me sentindo mal e não queria ficar sozinha.

Sexta – 22.02
A sexta era o dia da orquestra para a Lele. Nós ficamos papeando no escritório dos nossos amigos suecos, e pudemos rever a esposa de um deles, uma gaúcha que conhecemos no Brasil. Foi bem legal. O Gabriel saiu um pouco antes, pois precisava comprar algumas coisas, depois nos reencontramos em casa e os meninos foram ao mercado enquanto eu esperava em casa e aproveitava para concluir a apresentação e enviar mais dois projetos para outra seleção. Estou realmente querendo que este ano decole em relação aos projetos pessoais.

Sábado – 23.02
No sábado madrugamos, pois precisávamos estar no centro antes das 7h para encontrar outro casal de amigos e pegar o ônibus para Borlänge. O fim de semana seria em Romme Alpin, um resort esportivo de inverno – ou seja, muitas pistas de esqui e snowboard para nos arrebentarmos.
Eu nem sei patinar com rodinhas, estava apavorada. A maioria do pessoal optou pelo snowboard, mas fiquei com os esquis, que teoricamente são mais fáceis.
A primeira grande dificuldade foi ficar em cima daquilo sem me desesperar e cair. A segunda foi pegar o lift esquisitinho para subir pra pista. A terceira foi descer. Na primeira vez, para evitar uma trombada com a fila do lift, caí em um buraco de neve e quase não consegui levantar, mesmo com a ajuda de outra moça que estava esquiando. Na segunda, trombei com a tela de separação da fila e meio que atropelei um menininho. Na terceira tive uma cãibra e desisti da descida deslizante – mas tive que descer mancando toda a pista e carregando o esqui, que pesa infinitamente mais do que eu poderia imaginar. Depois disso, fomos nos encontrando em um dos cafés de Romme até dar a hora de ir para o hotel. O Miguel e eu gostamos do hotel, chegamos, tiramos um cochilo, tomamos um bom banho, depois fomos todos para um único quarto ver o Melodifestivalen, que é um programa parecido com o The Voice Brasil.

Domingo – 24.02
Acordamos cedo no domingo, pois o ônibus nos pegaria no hotel às 9h. O café da manhã do hotel estava bem gostoso, eu poderia ficar lá comendo até o ônibus das 11h. Fomos para a estação de esqui com todas as nossas coisas, pois infelizmente não voltaríamos para o hotel depois. Acreditem, neste dia nós passamos calor!
Quase todos pegaram esqui neste dia. Passei um tempo meio apavorada de descer as rampas, mas o Gabriel se habituou bem depressa e ficou um tempo comigo e com a Letícia, ajudando a gente a aprender a frear e fazer curvas.
Depois disso fiquei um pouco mais confiante e segui o dia descendo a rampa, embora não criasse coragem como os outros de ir para outras mais altas. Foi divertido e descobri que ainda sei cair sem me machucar – ou dei muita sorte.
Na volta para Estocolmo quase todos do ônibus cochilaram, mas começou a passar “A Espada Era a Lei” na tv do ônibus e, mesmo que estivesse dublado em sueco, eu adoro este desenho e assisti ele inteiro.
Nosso dia terminou com a chegada em Estocolmo – exaustos, doloridos, mas depois de um fim de semana muito divertido isso tudo é detalhe.

#65 – Identidade de Nós Mesmo [Caderno de Notas sobre Roupas e Cidades]

Capa do DVD alemão.

A primeira vez que assisti a este documentário, a tradução do título original foi mantida – então para mim, mesmo que o DVD brasileiro tenha vindo com o terrível título “Identidade de Nós Mesmos”, o filme sempre será o “Caderno de Notas sobre Roupas e Cidades”.

Foi exibido em janeiro de 2008, durante um evento chamado Ziguezague que abordava discursos e trabalhos de moda e arte – mas já não acontece mais há cerca de um ano – paralelamente à realização do SPFW. Não pude acompanhar todo o evento, mas consegui ver integralmente esta obra de Wim Wenders, que mostra o trabalho do designer de moda Yohji Yamamoto e traz algumas questões mais filosóficas sobre identidade, cópia, a relação com as cidades e mais alguns temas, que ainda permanecem atuais vinte e três anos depois da gravação.

Em fevereiro do mesmo ano comecei a faculdade de Design de Moda, sob influência de vários exemplos de design de origem japonesa, mas só fui me dar conta disso recentemente, e nem mesmo me recordo de ter utilizado estes elementos em algum trabalho.
No último sábado o filme foi exibido como parte da aula na pós-graduação. É bem interessante revê-lo com mais bagagem, tanto de cinema quanto de moda.

Wim Wenders explora uma duplicação na tela – que reforça a ideia do diálogo entre ele e o estilista – e experimenta a gravação com filmadora eletrônica no lugar da tradicional câmera de cinema, o que dá espaço para a discussão sobre analógico, digital e cópia, sobre como será o futuro.

Em uma mesma cena é possível ver Paris e Tóquio, as mãos do cineasta e do designer em cidades diferentes manuseando um mesmo livro de fotos antigas – pois Yamamoto diz não acreditar no futuro, mas sim no passado, nas coisas que já realmente aconteceram. Os dois também conversam enquanto disputam uma partida de sinuca, em uma estrutura metálica com Paris ao fundo e, ao mostrar trechos do desfile que Yohji preparava durante as filmagens, é como se as modelos desfilassem sobre dois monitores que exibiam as roupas sendo desenvolvidas e seu criador.

A trilha sonora é marcante, enquanto escrevo posso ouvi-la perfeitamente na memória.
Este é um daqueles filmes que considero indispensável tanto pra quem gosta de cinema, pela construção, quanto pra quem gosta de moda, pela importância de Yamamoto. No caso de gostar das duas coisas, se torna mais que obrigatório.

[mais]

O documentário foi encomendado a Wim Wenders pelo Centro Nacional de Arte e Cultura Georges Pompidou, de Paris. Inicialmente, o cineasta foi um pouco resistente – o que ele mesmo conta no início do filme – mas cedeu, e acabou percebendo semelhanças entre o trabalho do criador de moda e do criador de cinema.

Ao procurar imagens para ilustrar o post, descobri que Yohji Yamamoto vai dirigir seu primeiro filme, com lançamento previsto para 2014, e que ele foi protagonista de um curta, em 2011, chamado “This is My Dream” dirigido por Theodore Stanley.

Dizem também que o designer nasceu em 03 de outubro [de 1943], mesma data de aniversário de uma certa Natália, que tem se esforçado para ter uma carreira como designer de moda… É uma curiosidade bastante inspiradora!

Título Original: Aufzeichnungen zu Kleidern und Städten
Origem e Ano: Alemanha (Ocidental) e França, 1989
Direção: Wim Wenders
Roteiro: Wim Wenders
Gênero: Documentário
Figurino: Yohji Yamamoto (na verdade suas criações são mostradas, mas não são exatamente figurinos)
Música: Laurent Petitgand

No IMDB.
No Pirate Bay.
No Modaspot

A partir desta semana os posts serão publicados às quartas.

#62 – A Outra

Poster original

No Brasil há uma relação muito estranha com a tradução de nomes próprios e títulos de filmes. No caso deste filme, particularmente, penso que não foi utilizado o seu título completo por dois motivos: para vendê-lo como uma história de adultério e porque a maioria das pessoas talvez ignore quem foi Ana Bolena. Além disso, me incomoda um bom tanto essa tradução de nomes próprios de personagens históricos.

Há tempos eu já tinha vontade de assistir “A Outra”, embora não soubesse grande coisa sobre o filme. Sabia que era alguma coisa relacionada ao controverso casamento de Henrique VII com Ana Bolena, que seria a responsável pela ruptura da Inglaterra com a Igreja Católica, mãe da Rainha Elizabeth I e teria um final trágico, acusada de bruxaria e adultério. Os figurinos me pareciam interessantes e as atrizes também – gosto muito da Natalie Portman e da Scarlett Johanson, apesar de achar que colocar tanta beleza em um filme só seja uma estratégia para torná-lo mais vendável.

Como na grande maioria dos filmes “históricos”, os acontecimentos são romanceados e adaptados, mas ainda assim é interessante.
Até então, eu não sabia que Ana Bolena realmente tinha uma irmã – Maria Bolena, que alguns historiadores suspeitam ser mais velha, e não mais nova como afirmado no filme – e que esta também teve um envolvimento com o rei.

Logo no início do filme, o próprio pai de Anne e Mary diz que suas filhas são muito diferentes, e que Anne seria uma criatura mais complicada. Daí em diante, as duas são retratadas com temperamentos distintos: enquanto Mary demonstra um traço mais doce, Anne é mais inquieta. Enquanto elas crescem, os homens da família determinam seu destino – mas os planos, desde sua concepção, começam a apresentar problemas.

Se, por um lado, Ana Bolena se tornou uma rainha controversa, por outro lado é inegável o impacto que exerceu com sua passagem pela corte – tanto a mudança religiosa quanto sua filha, que tornou-se uma rainha legendária, e ambas são elementos muito fortes na cultura britânica. Certamente há outros pontos, mas precisaria de um aprofundamento histórico para comentá-las.

Retomando o filme, a fotografia é muito bonita, as cores compõem cenas luxuosas até mesmo nos momentos mais agressivos. Os figurinos são assinados por Sandy Powell, mais uma vez apresentando um trabalho excelente, como em Entrevista com o Vampiro. Algumas roupas parecem saídas diretamente dos retratos conhecidos – em destaque para o vestido preto e o colar em forma de B que Anne veste mais perto do final – as pérolas, muito em alta neste período, aparecem em diversos momentos e o vestido verde – que não pude apurar se foi recriado a partir de alguma pintura ou possui alguma relação com o significado das cores na época – que é absolutamente lindo e destaca a personagem durante a cena de seu diálogo com o rei quando retorna à corte após um período na França.

Embora não seja tão fiel à História, nem uma obra prima cinematográfica, vale a pena ser visto por essa reconstrução de época e por já poder observar na atuação de Portman alguns traços mais sombrios que, recentemente, tiveram mais espaço em Cisne Negro.

[mais]

Baseado no livro A Irmã de Ana Bolena, de Philippa Gregory. O romance, que é o título de maior sucesso da autora, foi publicado em 2002 e, baseando-se nos fatos históricos, conta sob o ponto de vista de Mary Boleyn seu relacionamento com o rei Henrique VIII e, posteriormente, a ascensão de sua irmã, Anne Boleyn, ao posto de rainha consorte.

Título Original: The Other Boleyn Girl
Origem e Ano: Reino Unido e EUA, 2008
Direção: Justin Chadwick
Roteiro: Peter Morgan
Gênero: Drama
Figurino: Sandy Powell
Música: Paul Cantelon

No IMDB.
No Adoro Cinema.
No TorrentButler.

#61 – O Artista

Poster estadunidense.

Um reflexo gritante da falta de tempo causada pelo TCC é que no final de 2011 eu não assisti quase nada. e 2012 começou com tantas mudanças que, mesmo assistindo vários filmes, não consegui falar sobre nenhum. Lançamentos ou filmes em cartaz? nem sabia de mais nada disso!

Então chegou o Oscar, cheio de indicações a filmes que eu nem sabia direito do que se tratavam, e meio mundo falando sobre o grande vencedor, “O Artista” – que tentei convencer o namorado a ver comigo aqui em Porto Alegre, mas sem sucesso. Quando fomos para São Paulo para minha colação de grau, finalmente convenci o gatinho a ir comigo ao Espaço Unibanco Itaú Augusta para assistir.

Antes de comentar o filme, vou mencionar três incômodos que tive na sessão: do nada o filme parou, as luzes se acenderam e ficamos todos olhando em volta para ver se aparecia alguém do cinema pra falar alguma coisa, mas nada. bem chato. mas pior que isso, só as vozes que estavam vazando da parte de trás da tela para a sala – seria a brigada de incêndio? – e aquelas pessoas não falavam, mas gritavam, de forma que mesmo o filme tendo trilha sonora era possível ouví-las.
E, para completar, havia um pernilongo se banqueteando dos espectadores do filme.

O namorado não gostou, achou o filme lento, mas eu achei lindo, gostei de verdade.

O enredo é simples, aborda a decadência de um astro de filmes mudos de Hollywood(land) com a chegada dos filmes falados e a ascensão de novas estrelas. Algumas pessoas criticaram por ser um filme “americanizado”, embora de origem franco-belga, mas acho meio descabido fazer esse tipo de crítica, pois quantas vezes o cinema conta história originais de outros países? O filme conta uma história com personagens estadunidenses, gostariam que fossem como? Parisienses?
Adorei as cenas de dança e, mesmo não gostando muito que utilizem animais em filmes e espetáculos, não posso negar que o cãozinho do filme é encantador.

O filme é metalinguístico – mostra o cinema dentro do cinema, e todo ele é composto como um filme original da era muda, desde os créditos.
Vi muita gente pontuando a questão de a primeira cena – muda, com as falas sendo mostradas em uma tela de fundo preto, exatamente como os filmes de 1920 – ser de um filme de George Valentin, o protagonista interpretado por Jean Dujardin, onde seu personagem se recusa a falar, assim como posteriormente Valentin se recusa a trabalhar com filmes falados. Uma boa abertura para mostrar a que veio.

Se precisasse definir o filme todo em uma palavra, seria doce, pois há uma doçura enorme no sentimento de Peppy Miller, interpretada por Bérénice Bejo, por seu ídolo, George Valentin, e todo o cuidado que ela tem com ele, mesmo quando se torna uma das estrelas em ascensão – personificando o ideal de “jovem, bela e falante” – enquanto ele vai caindo no esquecimento.

Sem grandes efeitos especiais, há algumas cenas interessantíssimas, onde os efeitos são empregados para mostrar os pesadelos e alucinações que começam a incomodar Valentin, e depois soube que o filme foi gravado em cores, para que trabalhassem melhor os contrastes, e convertido posteriormente para preto e branco. É bastante curioso ver alguns trechos coloridos pela internet.

Acho que o que mais me encantou no todo foi a ousadia de se lançar um filme nos moldes de 1920 quase cem anos depois, quando lançamentos e relançamentos em 3D se alastram pelas salas do mundo todo e efeitos especiais mirabolantes por vezes compensam roteiros fracos. O filme é simples, doce e bonito, transmite muita coisa pela expressão dos atores, figurinos e trilha sonora, e talvez tenha ganhado todos os prêmios que ganhou justamente por trazer de volta o encantamento que o cinema vem perdendo no meio dos excessos.

Vou ver de novo, com certeza.

[mais]

Indicado a 10 Oscars, levou 5 prêmios: Figurino, Diretor, Trilha Sonora Original, Ator e Filme. Indicado a 12 BAFTA, ganhou 7: Filme, Diretor, Ator, Roteiro Original, Trilha Sonora Original, Fotografia e Figurino.

Algumas cenas.
Mais uma cena – bem bonita, por sinal.

Título Original: The Artist
Origem e Ano: França e Bélgica, 2011
Direção: Michel Hazanavicius
Roteiro: Michel Hazanavicius
Gênero: Drama
Figurino: Mark Bridges
Música: Ludovic Bource

No IMDB.
No Adoro Cinema.
No TorrentButler.

Imagens: Moviespad, Sarahism.